terça-feira, 4 de novembro de 2008

A história informal é tudo de bom...

Ainda faltava muito para as oito horas da manhã e já tinha que preencher um formulário que deixaram em minha mesa. Pouco tempo depois o ramal tocou e lá fui ao ambulatório com minha folhinha toda cheia de marcações, conversar com o médico da empresa. Já que não bebo, não fumo e minha saúde está ótima – obrigada! - pensei que minha consulta seria bem rápida e de rotina.

Poderia ser assim em qualquer outro lugar, mas não quando o médico que irá te examinar é o Dr. Macatti. Ao entrar na sala ele logo começou a perguntar: “O que você faz aqui menina?”. Respondi de imediato que pediram para que eu fosse até lá e ele incorporou um entrevistador:

- Você trabalha no marketing e é jornalista, né? Li aqui...

- Sim...

- Assistiu o Fantástico no domingo passado?

- Não pude assistir. Não estava em minha casa...

- Mas você viu a história dos médicos que não conseguiram se formar há muitos anos?

- Sim, acompanhei pelos jornais. Li sobre o assunto e sobre a história daquele estudante...

- Sabia que eu fiz parte desta turma?

Acho que fiquei com cara de tanta surpresa que não precisei pedir para que ele continuasse a história. Começou então a me contar que aquela época era muito difícil e que havia se mudado para o Rio de Janeiro para fazer faculdade de medicina. Lá conheceu muitas pessoas, inclusive o estudante Luiz Paulo Cruz Nunes, que foi morto aos 21 anos pela polícia em uma manifestação realizada pelos ‘futuros doutores’, contra a prisão de estudantes de medicina em um congresso.

Macatti não pôde chegar a tempo para a manifestação, disse-me que estava com gripe no dia. Antes de ir até lá resolveu passar em casa para tomar algo, obedecendo o conselho do amigo Nunes, que não queria vê-lo debilitado durante o ato. “Quando estava chegando na manifestação começaram a disparar contra todo mundo e impediram que eu chegasse até lá. Infelizmente o Nunes morreu...”, disse enquanto media a minha pressão.

Depois de ficar triste ao falar da morte do colega, enfatizou que era absurdo não poderem colar grau na época porque queriam fazer uma homenagem ao Nunes, que foi morto de maneira tão estúpida. Assim que pegou seu diploma seguiu à risca as palavras de seu professor: “Saiam daqui, vão para longe do Rio. Várias pessoas precisam de vocês fora daqui, saiam desta bagunça!”, e já emendou “Agora pode levantar da maca que você está mais que bem, mocinha!”.

Apenas levantei, sentei-me na cadeira para pegar o resultado do exame e continuei a ouvir. Foi a primeira vez que não quis perguntar nada, pois não era necessário. Seria muita injustiça e egoísmo de minha parte acabar com aquele relato em primeira pessoa, bem na minha frente.

Deixei o assunto por si só responder minhas dúvidas, não interferi em nada. “Fiquei muito emocionado por viver tudo aquilo. Nossa turma se reúne de cinco e cinco anos, mas quando surgiu a idéia de fazermos a formatura fiquei feliz. Entra depois no site da reportagem e tenta me achar no meio da turma”. Fiz o que ele pediu assim que cheguei em casa, acho que só o vi de costas. E eu pensava que era apenas outro exame de rotina.

5 comentários:

Armando Maynard disse...

Para uma jornalista não poderia existir consulta mais que perfeita,no lugar de uma receita, saiu com um artigo(post) pronto.Um abraço,Armando(lygiaprudente.blogspot.com) e (fetichedecinefilo.blogspot.com)

Gabriela Angeli disse...

Oi, Armando!

Adorei o comentário, você está coberto de razão. Acho que uma consulta nunca foi tão produtiva quanto esta! rs

Obrigada pela visita!

Beijos,
Gabi.

LUH SANTOS disse...

Gabi
A história informal, nos serve assim, num relato espontâneo, como o mais verdadeiro registro histórico de acontecimentos...
Deixar fluir assim uma "consulta/relato/entrevista", onde o protagonista desempenha vários papéis, fazer perguntas, realmente, seria de um egoísmo absoluto. Sábia decisão em apenas ouvir...
Tarefa árdua para quem tem o ofício de antes Perguntar...

André Carrico disse...

Gabi: Ótima a sua hístória. E a crônica está bem escrita. É assim, desse estofo, que se faz nasce uma crônica. Eu só cortaria o último parágrafo... Não precisa tirar conclusão, deixe a conclusão para o leitor, daria para encerrar no penúltimo parágrafo. Parabéns!

Gabriela Angeli disse...

Oi, Luh!

Realmente foi difícil me segurar, mas acho que valeu a pena. O mais importante é ter conseguido passar a idéia (espero que tenha dado certo! rs). Simplesmente adoro histórias individuais que se tornam públicas, é uma paixão para mim...


Ah! André, muito obrigada pela dica, ela já foi atendida. É bom receber este feedback para que eu possa aprimorar sempre, não é? Gosto de sinceridade, ela nos leva longe.


Fico feliz e agradeço a visita de vocês!

Beijos,
Gabi.