Um, dois, três ou 33...

Relutei para escrever sobre isto, mas não pude passar ilesa nesse verdadeiro bombardeio de julgamentos digitais feitos contra a adolescente de 16 anos, que foi à polícia e disse ter sido violentada por, pelo menos, 30 homens em uma comunidade no Rio de Janeiro (RJ) no último dia 21.

Este texto, aliás, é quase um vômito bem na face da maior parte das pessoas que falam e julgam a situação. Não fazem ideia a dor da violência sexual e as consequências que seguem dia após dia, ano após ano, na alma feminina e de sua família. Somente quem passou por alguma experiência similar sabe a insensatez de quem fala deste assunto sem saber. Por isto, parei de relutar e decidi escrever.

Minha história
Aos 12 anos comecei a sofrer uma série de tentativas de abuso sexual dentro de minha própria casa, ou melhor, na casa de meus avós paternos. As investidas só não se consumaram porque meus pais – graças a Deus! – sempre construíram comigo uma relação muito aberta de confiança e de muita conversa, com linguagem totalmente compreensível. Sem esta relação acredito que, certamente, as investidas teriam se tornado algo bem mais grave e eu teria que carregar uma dor ainda maior em minha alma além da que já carrego.  

As investidas eram feitas de uma forma que eu demorei a perceber, na realidade. Eram singelas e escondidas, inicialmente, em brincadeiras de criança (jogos de carta, tabuleiro, pique-esconde). Ele – um antigo namorado da irmã mais nova do meu pai – era uma pessoa extremamente divertida e que adorada brincar e interagir; era o verdadeiro tio gente boa.

Só percebi que algo estava muito errado quando comecei a ver gestos estranhos no meio das brincadeiras. Quando ele começou a me mostrar partes típicas do corpo masculino “sem querer”, somente quando não havia alguém por perto. E as conversas de alerta que meus pais tinham comigo começaram a fazer total sentido. Não tive dúvidas quando ele, jogando cartas quando minha tia saiu da sala, fez questão de mostrar para mim - daquele jeito disfarçado, sentado e com a mão fazendo movimentos - que não estava de cueca. Percebendo que aquilo não era certo, a partir daquele dia eu não ficava mais sozinha perto dele, mas não contei aos meus pais por medo.   

E tudo se intensificou logo após o almoço de 1º de janeiro de 1997, na casa de meus avós. A minha tia, namorada dele, tinha cochilado no quarto dela, com ele; e os demais estavam descansando também. Fui assistir televisão no quarto da minha outra tia e ele deve ter percebido que eu estava sozinha. Viu, ali, uma oportunidade (acredito) e deixou minha tia dormindo no outro cômodo.

Na tentativa de me encurralar, ele até tentou me fechar no quarto da minha outra tia. Só dele entrar lá fiquei paralisada e ele tentou pegar a minha mão para colocar dentro do shorts dele. Consegui me soltar e me tranquei no banheiro do quarto. Não gritei, mas tremia tanto que mal conseguia espiar na janela do banheiro, para ver se conseguia chamar alguém de lá para me ajudar. A casa dos meus avós é enorme. Juro que esperei por cerca de uma hora no banheiro, espiando na janela e tremendo, até vê-lo no quintal. Sai correndo atrás de alguém... 

A primeira pessoa que encontrei ao fugir do banheiro foi minha avó, que estava cochilando no sofá dela. Ela até percebeu que alguma coisa estava errada, mas não fazia ideia do que era. Perguntava se eu estava bem, porque estava reagindo de forma estranha e eu só repetia que queria ir embora. Ela, então, me levou até minha casa. Corri com a minha mãe e contei absolutamente TUDO o que havia acontecido e o mundo dela parou; ela nunca mais se recuperou totalmente da “paulada” que foi aquela notícia.

Minha mãe saiu igual um furacão atrás dele, mas a impediram de fazer algo. Passados uns dois dias de muito choro e tristeza meus pais foram procurar um padre (somos católicos) e este padre, que conhecia o pedófilo desde criança, foi conversar com ele e o fez confessar o que havia acontecido. E realmente só “acreditaram” em mim e na minha mãe, de fato, quando ele “confessou” ao padre as investidas e a última tentativa.

O padre, aliás, foi o único envolvido no caso além de nossa família e a todo momento pediu para registramos um Boletim de Ocorrência (BO). Não procuramos a polícia por medo.

E o que aconteceu?


A vida tem que seguir e meus pais e eu tivemos que "superar" isto. A vida dele também seguiu: ele casou, teve um filho e hoje - novamente! - convive perto de outras crianças em sua casa, meninos e meninas, com menos idade do que eu tinha quando ele fazia as “investidas”.

Ainda herdei a vergonha que deveria ser dele. Também herdei a convivência com a dor nos olhos da minha mãe, que se transforma todas as vezes que a vejo ouvindo o nome dele ou se ela o vê na rua (a raiva e a dor são as mesmas de quando contei para ela o que tinha acontecido, lá nos meus 12 anos). Meu pai, nesta história, sempre tentou se fazer de forte. Mesmo ele tendo colocado em prática o ensinamento cristão do perdão, percebo que sente de não ter me defendido da forma que deveria. E isso acontece todas as vezes que aparecem casos de pedofilia e de estupro na TV.

As feridas que as tentativas e situações de abuso causam nunca cicatrizam, nem com um milhão de sessões de terapia. E foi justamente por isto que não poderia deixar de escrever sobre o assunto. Não importa quantos estavam lá, se faltou ou se não teve estrutura familiar, a idade, se já tinha feito sexo ou não, se estava drogada ou bêbada ou nenhum dos dois. Se foi um ou se foram dois, três ou 33, realmente não importa: a alma humana é roubada a cada tentativa de abuso sexual e morta a cada consumação do estrupo. 

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