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segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Ficando feliz por nada novamente...

Há períodos em nossas vidas nos quais não nos identificamos com absolutamente nada. E nesta fase, caro leitor, tudo costuma ser sem graça, pois não há nada que nos tire da mesmice de sempre e da rotina chata. Nestes tempos difíceis nenhum barzinho tem a coxinha que gostamos, nenhum livro é digno de nossa atenção na prateleira da livraria, nenhuma banda consegue criar uma nova canção que nos agrade, nenhum prato de comida se torna objeto de nosso desejo, nenhuma fotografia consegue nos emocionar, nenhum filme consegue entrar para a lista dos mais queridos, nenhum assunto é digno de se tornar uma crônica e – pasmem, sobretudo os seres do sexo feminino – nem as vitrines das lojas de sapatos e roupas em promoção de 80% conseguem nos entreter e nos fazer abrir as carteiras.

E quando isso acontece, a falta de identificação com algo complicado ou simples, ficamos mal humorados, chatos e repulsivos. Sim, chatos de galocha, daqueles que não queremos perto nem hoje e nem nunca, que não sorriem nem quando seus cachorros de estimação os recebem felizes e balançando o rabo igual corda de pular na velocidade “foguinho”. E eu estava assim, um ser totalmente insuportável, apático e que não conseguia se identificar com nada. Mas como diz meu sábio avô Cid, depois de toda borrasca sempre vem uma boa surpresa.

E meu avô realmente estava certo. Estava lá na esteira da academia, em uma noite fria de quinta-feira, lendo uma revista qualquer para me distrair durante o tempo de aquecimento para ir à musculação quando uma das professoras de lá, a Gi, veio em minha direção com um livro na mão, com um sorrisão no rosto – e ela está grávida, então era um lindo e grande sorriso mesmo – e me disse “Acho que você vai adorar este livro, é a sua cara!”. Entregou em minhas mãos o livro “Feliz por Nada”, com crônicas da Martha Medeiros.

Confesso que havia lido alguns textos da jornalista por aí, há muitos anos mesmo, e naquela época nem sabia o que era uma crônica. Anos mais tarde e completamente apaixonada por este gênero literário, tenho aproveitado cada frase da Martha. Ela tem tudo na dose certa, talento, simplicidade, objetividade, passa longe da autoajuda – ufa! – e sabe fazer o que eu sempre quis desde que resolvi fazer jornalismo: despertar, no ato, a identificação do leitor com o que eu sou capaz de escrever.

E pronto, nem preciso dizer que bastou algumas páginas para que eu pudesse sair finalmente da zona de conforto e da apatia, voltar a me identificar com algo, sensibilizar-me mais e voltar  a me inspirar. Uma delícia voltar à normalidade de se identificar com o próximo, mesmo não o conhecendo; de rir com coisas simples, de saber que todo mundo tem uma amiga com complexo de namorado, de também achar que nem tudo é digno de foto e de se sentir próxima da realidade, sem frescura e sem muitos adjetivos. Como é bom ficar feliz novamente e de forma mais fácil do que o esperado, com uma boa dica de leitura na esteira da academia...


Se você se interessou pelo livro, é este aqui. Se clicar aqui, conseguirá mais informações! ;)

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Aos amantes de gírias antigas, ser brotinho é...

Faz tempo que não compartilho por aqui os textos que mais gosto, que não me dedico a este projeto pessoal tão especial. Aliás, confesso que faz um bom tempo que não faço o que gosto: ler ser compromisso e escrever sem ser chapa-branca. Eis então que para retomar estes meus desejos relembro de uma crônica muito boa do Paulo Mendes Campos, que me chamou a atenção há alguns anos e que é uma boa leitura para uma noite de chuva como esta. 

Aproveito e dedico-a especialmente às minhas queridas amigas, que sempre tiram sarro de meu vocabulário repleto de gírias antiquadas - acredito que isso até renderá um futuro post. Lembrem-se: vocês me irritam, mas gosto muito de vocês! ;) 

***

Ser Brotinho   

Paulo Mendes Campos

Ser brotinho não é viver em um píncaro azulado: é muito mais! Ser brotinho é sorrir bastante dos homens e rir interminavelmente das mulheres, rir como se o ridículo, visível ou invisível, provocasse uma tosse de riso irresistível.

Ser brotinho é não usar pintura alguma, às vezes, e ficar de cara lambida, os cabelos desarrumados como se ventasse forte, o corpo todo apagado dentro de um vestido tão de propósito sem graça, mas lançando fogo pelos olhos. Ser brotinho é lançar fogo pelos olhos.

É viver a tarde inteira, em uma atitude esquemática, a contemplar o teto, só para poder contar depois que ficou a tarde inteira olhando para cima, sem pensar em nada. É passar um dia todo descalça no apartamento da amiga comendo comida de lata e cortar o dedo. Ser brotinho é ainda possuir vitrola própria e perambular pelas ruas do bairro com um ar sonso-vagaroso, abraçada a uma porção de elepês coloridos. É dizer a palavra feia precisamente no instante em que essa palavra se faz imprescindível e tão inteligente e natural. É também falar legal e bárbaro com um timbre tão por cima das vãs agitações humanas, uma inflexão tão certa de que tudo neste mundo passa depressa e não tem a menor importância.

Ser brotinho é poder usar óculos como se fosse enfeite, como um adjetivo para o rosto e para o espírito. É esvaziar o sentido das coisas que transbordam de sentido, mas é também dar sentido de repente ao vácuo absoluto. É aguardar com paciência e frieza o momento exato de vingar-se da má amiga. É ter a bolsa cheia de pedacinhos de papel, recados que os anacolutos tornam misteriosos, anotações criptográficas sobre o tributo da natureza feminina, uma cédula de dois cruzeiros com uma sentença hermética escrita a batom, toda uma biografia esparsa que pode ser atirada de súbito ao vento que passa. Ser brotinho é a inclinação do momento.

É telefonar muito, estendida no chão. É querer ser rapaz de vez em quando só para vaguear sozinha de madrugada pelas ruas da cidade. Achar muito bonito um homem muito feio; achar tão simpática uma senhora tão antipática. É fumar quase um maço de cigarros na sacada do apartamento, pensando coisas brancas, pretas, vermelhas, amarelas.

Ser brotinho é comparar o amigo do pai a um pincel de barba, e a gente vai ver está certo: o amigo do pai parece um pincel de barba. É sentir uma vontade doida de tomar banho de mar de noite e sem roupa, completamente. É ficar eufórica à vista de uma cascata. Falar inglês sem saber verbos irregulares. É ter comprado na feira um vestidinho gozado e bacanérrimo.

É ainda ser brotinho chegar em casa ensopada de chuva, úmida camélia, e dizer para a mãe que veio andando devagar para molhar-se mais. É ter saído um dia com uma rosa vermelha na mão, e todo mundo pensou com piedade que ela era uma louca varrida. É ir sempre ao cinema mas com um jeito de quem não espera mais nada desta vida. É ter uma vez bebido dois gins, quatro uísques, cinco taças de champanha e uma de cinzano sem sentir nada, mas ter outra vez bebido só um cálice de vinho do Porto e ter dado um vexame modelo grande. É o dom de falar sobre futebol e política como se o presente fosse passado, e vice-versa.

Ser brotinho é atravessar de ponta a ponta o salão da festa com uma indiferença mortal pelas mulheres presentes e ausentes. Ter estudado ballet e desistido, apesar de tantos telefonemas de Madame Saint-Quentin. Ter trazido para casa um gatinho magro que miava de fome e ter aberto uma lata de salmão para o coitado. Mas o bichinho comeu o salmão e morreu. É ficar pasmada no escuro da varanda sem contar para ninguém a miserável traição. Amanhecer chorando, anoitecer dançando. É manter o ritmo na melodia dissonante. Usar o mais caro perfume de blusa grossa e blue-jeans. Ter horror de gente morta, ladrão dentro de casa, fantasmas e baratas. Ter compaixão de um só mendigo entre todos os outros mendigos da Terra. Permanecer apaixonada a eternidade de um mês por um violinista estrangeiro de quinta ordem. Eventualmente, ser brotinho é como se não fosse, sentindo-se quase a cair do galho, de tão amadurecida em todo o seu ser. É fazer marcação cerrada sobre a presunção incomensurável dos homens. Tomar uma pose, ora de soneto moderno, ora de minueto, sem que se dissipe a unidade essencial. É policiar parentes, amigos, mestres e mestras com um ar songamonga de quem nada vê, nada ouve, nada fala.

Ser brotinho é adorar. Adorar o impossível. Ser brotinho é detestar. Detestar o possível. É acordar ao meio-dia com uma cara horrível, comer somente e lentamente uma fruta meio verde, e ficar de pijama telefonando até a hora do jantar, e não jantar, e ir devorar um sanduíche americano na esquina, tão estranha é a vida sobre a Terra.

***

Um dia quero escrever tão bem assim, ainda chego lá!

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Que saudades do Zin'Bar...

Com certeza você deve ter um bar do coração, aquele no qual gosta de tomar uma cerveja ou uma coca-cola, comer besteiras e bater papo, seja qual for o dia da semana. Não fujo da regra e também tenho meu cantinho especial: o Zin'Bar, conhecido carinhosamente por "Zin'Bão" pelos mais íntimos.

Comidinha e bebidinha mais que boa, mesinha ao ar livre, preço camarada, música no volume certo e excelente atendimento, é um dos únicos lugares que me sinto bem a vontade em Campinas, pois não tem frescura nenhuma e é de primeira (Rosane, vou pegar emprestada essa expressão, ok? rs).

Entretanto, meu botequinho querido está fechado há dois meses e juro que estou morrendo de saudades. Sei que não é definitivo e que estão de mudança para outro endereço, pois o shopping Jaraguá fechou, mas é difícil imaginar as noites de verão sem dar uma passadinha lá, para jogar conversa fora. Meu namorado até brinca que vai procurar ajuda profissional caso não volte a funcionar logo, adoramos tudo lá.

E para homenagear a falta que o Zin'Bão me faz nesta madrugada quente de sexta-feira, resolvi postar uma crônica do Antonio Prata. Apesar da chamada não ter nada a ver com o meu botequinho predileto, que é totalmente excelente, me fez lembrar em como é bom ter um lugar com o qual nos identificamos e que gostamos de estar, bem simples e sem badalação chata.

Se tiver um tempinho não deixe de ler...


Bar ruim é lindo, bicho

de Antonio Prata

Eu sou meio intelectual, meio de esquerda, por isso freqüento bares meio ruins. Não sei se você sabe, mas nós, meio intelectuais, meio de esquerda, nos julgamos a vanguarda do proletariado, há mais de cento e cinqüenta anos. (Deve ter alguma coisa de errado com uma vanguarda de mais de cento e cinqüenta anos, mas tudo bem.)

No bar ruim que ando freqüentando ultimamente o proletariado atende por Betão – é o garçom, que cumprimento com um tapinha nas costas, acreditando resolver aí quinhentos anos de história.

Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos ficar “amigos” do garçom, com quem falamos sobre futebol enquanto nossos amigos não chegam para falarmos de literatura.

– Ô Betão, traz mais uma pra a gente – eu digo, com os cotovelos apoiados na mesa bamba de lata, e me sinto parte dessa coisa linda que é o Brasil.

Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos fazer parte dessa coisa linda que é o Brasil, por isso vamos a bares ruins, que têm mais a cara do Brasil que os bares bons, onde se serve petit gâteau e não tem frango à passarinho ou carne-de-sol com macaxeira, que são os pratos tradicionais da nossa cozinha. Se bem que nós, meio intelectuais, meio de esquerda, quando convidamos uma moça para sair pela primeira vez, atacamos mais de petit gâteau do que de frango à passarinho, porque a gente gosta do Brasil e tal, mas na hora do vamos ver uma europazinha bem que ajuda.

Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, gostamos do Brasil, mas muito bem diagramado. Não é qualquer Brasil. Assim como não é qualquer bar ruim. Tem que ser um bar ruim autêntico, um boteco, com mesa de lata, copo americano e, se tiver porção de carne-de-sol, uma lágrima imediatamente desponta em nossos olhos, meio de canto, meio escondida. Quando um de nós, meio intelectual, meio de esquerda, descobre um novo bar ruim que nenhum outro meio intelectuais, meio de esquerda, freqüenta, não nos contemos: ligamos pra turma inteira de meio intelectuais, meio de esquerda e decretamos que aquele lá é o nosso novo bar ruim.

O problema é que aos poucos o bar ruim vai se tornando cult, vai sendo freqüentado por vários meio intelectuais, meio de esquerda e universitárias mais ou menos gostosas. Até que uma hora sai na Vejinha como ponto freqüentado por artistas, cineastas e universitários e, um belo dia, a gente chega no bar ruim e tá cheio de gente que não é nem meio intelectual nem meio de esquerda e foi lá para ver se tem mesmo artistas, cineastas e, principalmente, universitárias mais ou menos gostosas. Aí a gente diz: eu gostava disso aqui antes, quando só vinha a minha turma de meio intelectuais, meio de esquerda, as universitárias mais ou menos gostosas e uns velhos bêbados que jogavam dominó. Porque nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos dizer que freqüentávamos o bar antes de ele ficar famoso, íamos a tal praia antes de ela encher de gente, ouvíamos a banda antes de tocar na MTV. Nós gostamos dos pobres que estavam na praia antes, uns pobres que sabem subir em coqueiro e usam sandália de couro, isso a gente acha lindo, mas a gente detesta os pobres que chegam depois, de Chevette e chinelo Rider. Esse pobre não, a gente gosta do pobre autêntico, do Brasil autêntico. E a gente abomina a Vejinha, abomina mesmo, acima de tudo.

Os donos dos bares ruins que a gente freqüenta se dividem em dois tipos: os que entendem a gente e os que não entendem. Os que entendem percebem qual é a nossa, mantêm o bar autenticamente ruim, chamam uns primos do cunhado para tocar samba de roda toda sexta-feira, introduzem bolinho de bacalhau no cardápio e aumentam cinqüenta por cento o preço de tudo. (Eles sacam que nós, meio intelectuais, meio de esquerda, somos meio bem de vida e nos dispomos a pagar caro por aquilo que tem cara de barato.) Os donos que não entendem qual é a nossa, diante da invasão, trocam as mesas de lata por umas de fórmica imitando mármore, azulejam a parede e põem um som estéreo tocando reggae. Aí eles se dão mal, porque a gente odeia isso, a gente gosta, como já disse algumas vezes, é daquela coisa autêntica, tão Brasil, tão raiz.

Não pense que é fácil ser meio intelectual, meio de esquerda em nosso país. A cada dia está mais difícil encontrar bares ruins do jeito que a gente gosta, os pobres estão todos de chinelos Rider e a Vejinha sempre alerta, pronta para encher nossos bares ruins de gente jovem e bonita e a difundir o petit gâteau pelos quatro cantos do globo. Para desespero dos meio intelectuais, meio de esquerda que, como eu, por questões ideológicas, preferem frango à passarinho e carne-de-sol com macaxeira (que é a mesma coisa que mandioca, mas é como se diz lá no Nordeste, e nós, meio intelectuais, meio de esquerda, achamos que o Nordeste é muito mais autêntico que o Sudeste e preferimos esse termo, macaxeira, que é bem mais assim Câmara Cascudo, saca?).

– Ô Betão, vê uma cachaça aqui pra mim. De Salinas quais que tem?

Texto tirado do livro "As cem melhores crônicas brasileiras"

*Imagem de porta do banheiro masculino do Zin'Bar (quem conhece meu pai notará uma séria semelhança). Crédito da foto: Marília Piovesana e seu ágil celular!

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Que ideia foi essa...

A atualização de algumas regras de ortografia da nossa querida língua portuguesa vão além das paroxítonas com ditongos abertos e tremas. O texto abaixo do jornalista Fernando Molica aborda esta "adequação", que não resume-se apenas à mudança de nossos hábitos ortográficos.

O AI-5 ortográfico
Por Fernando Molica, em 30 de dezembro de 2008.

Hoje, no Jornal Nacional, o Pasquale Cipro Neto ressaltou um aspecto fundamental nesta questão da reforma ortográfica: ela tem um custo. O custo de todos os livros que ficarão desatualizados, o custo dos corretores ortográficos dos programas dos computadores. E há mais custos, como o custo sentimental, a sensação de se reconhecer mais velho, desatualizado, fora do tempo. O mundo me chega pela língua. O idioma é também o instrumento com o qual tento, pelo menos, me fazer entender. E, daqui a poucas horas, este instrumento será mudado. O pouco que se sei será menos ainda.

Escrevo ao lado de uma estante que ocupa toda uma parede. Quantos livros haverá aqui? 800? Mil? Sei lá. Sei é que todos esses livros, assim como os que ficam nas outras estantes aqui de casa, estão condenados à morte, à velhice eterna, a uma espécie de arteriosclerose: continuarão existindo, mas serão levados menos a sério, estão todos condenados. Como os livros anteriores à reforma de 1972. Lembro que, alguns bons anos depois da anistia, trabalhei com um ex-exilado, um sujeito que estava fora do país quando houve a tal reforma. Pois, o texto do cara era cheio de acentos inexistentes, cheirava a mofo, a velhice. Uma velhice arbitrária, causada não pelo movimento da vida, pelo passar do tempo, mas por uma decisão autoritária, pouco democrática - estávamos no auge da ditadura militar.

Mais grave que o envelhecimento precoce dos livros aqui de casa é a morte anunciada do acervo das editoras. Milhares, milhares - milhões? - de exemplares estocados que, em pouco tempo, terão como único destino o lixo, a fogueira. Temo por uma espécie de hiato, uma zerada de estoque. Livros não-vendidos mas que continuavam em catálogo terão que ser descartados, vão parecer peças de museu com todos os seus muitos acentos, tremas e hífens. A grande maioria, a maioria absoluta, não será reeditada. Isso é gravíssimo. Futuros leitores não terão acesso a obras relativamente recentes. Livros lançados em 2008 ficarão caquéticos em pouquíssimo tempo.

Esta nova reforma é, até onde me lembro, fruto de uma conjuntura particular, de uma tentativa - por sinal, fracassada - de criação de uma tal Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, uma iniciativa do Zé Aparecido que encontrou no Antônio Houaiss sua tradução gramatical. E o Houaiss tratou de inventar uma novilíngua, a língua que ele achava que deveria ser a nossa língua. Não a portuguesa, não a 'brasileira' (chegam a falar assim em Portugal), mas a língua que ele achava que deveríamos escrever. Não uma língua que tivera sua evolução pautada pelos costumes, pela prática, mas uma língua de laboratório, biônica. Ninguém nunca escrevera do jeito que ele achou que deveríamos passar a escrever. Ele inventou uma língua e conseguiu emplacar essa besteira, pelo menos, entre nós.

Em maio passado, estive em Portugal. Pelo que vi, esta reforma não vai pegar por lá. Elas a tem como uma arbitrariedade, como coisa de brasileiros, uma tentativa de estupro de um idioma que eles, apesar da desigualdade numérica em relação ao número de falantes, continuam a chamar de seu. Duvido que eles aceitem esse negócio. Trouxas somos nós que aceitamos ser pioneiros nessa aventura.

OK, fala-se na necessidade de unificação, ressalta-se que o português é a única língua culta que não tem uma gramática única. E daí? As diferenças hoje são, na prática, menores. Lembro que livros portugueses eram 'traduzidos' no Brasil, eram adaptados ao nosso idioma. Se não me engano, Saramago acabou com isso, exigiu que as edições brasileiras respeitassem seu português. E o vento que ventou aqui ventou lá. Brasileiros publicados em Portugal passaram a exigir o mesmo. E a vida seguiu bem assim, sem traumas e com tremas.

A convivência com tantas ditaduras e com tantos pacotes econômicos nos fez mais dóceis e passivos. É absurdo que tantas mudanças sejam acompanhadas com tanta letargia. No mínimo isso demonstra - que surpresa? - um absoluto descaso pela língua, pela história de cada um de nós. Talvez ainda seja tempo de acabar com essa sandice, com esse ato institucional que nos toma algo precioso demais.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

E ele está apenas começando...

Estava na casa da minha tia Renata, ajudando a montar um painel para escola na qual ela dá aulas de português. Era uma espécie de jornal-mural que ela produziu junto com suas turmas para comemorar os 40 anos da escola municipal Júlio de Mesquita Filho, de Campinas.

Para adiantar um pouco as coisas para ela, comecei a digitar os textos dos alunos do 5º ano (4ª série) sobre os perigos do cerol. Li vários bem redigidos, uns que não expressam tanta vontade e outros normais. Foi então que me deparei com uma letrinha bem pequenininha, de um estudante chamado Eric Alexandre. Achei uma graça o jeito dele escrever, porque dá para perceber o cuidado que teve em desenvolver a história e passar para uma folha de caderno. Não aguentei ao ler uma criança escrevendo na linguagem certa para o público de sua idade e tive que postar uma pequena parte do texto aqui:

"O cerol matou muita gente e apesar de ser uma brincadeira de criança virou uma arma mortal (...). O cerol é usado muito por crianças porque elas pensam assim: - Se eu não usar vou acabar sem a pipa. Mas será que vale a pena arriscar vidas para não perder uma pipa de 50 centavos?

O cerol pode machucar muitas pessoas e eu digo NÃO ao cerol. Estão aprendendo muitas lojas que vendem cerol e em algumas cidades a regra é não usar."

Juro que achei o máximo o jogo de palavras, a simplicidade de pensamento e a forma clara de se expressar. Coloquei em minha seção de bons textos porque ainda lerei muitas coisas deste menino...

Eric, continue assim!

sábado, 25 de outubro de 2008

Você prefere como?

O texto postado abaixo foi retirado do portal da F/Nazca. Quem me indicou foi a Lívia, dizendo que eu não poderia deixar de ler. Gostei tanto que pensei em dividir com vocês...

Crise. Você prefere com ou sem açúcar?

Nós já enfrentamos e sobrevivemos a muitas crises. Talvez já tenhamos perdido as contas sobre o número e a origem delas. Mas as malditas já nos surpreenderam diversas vezes enquanto assobiávamos distraídos virando algumas dessas esquinas da vida. Algumas foram provocadas pelo petróleo, outras pela Rússia ou pela China, a maioria gerada internamente, já que em matéria de crise, o Brasil sempre foi auto-suficiente. A tal ponto que, se não chegamos a ser fraternos amigos - nós e a crise - também não podemos negar que tenhamos nos tornado íntimos conhecidos.

Nenhuma crise é igual à outra. Essa que chegou com toda a força, agora, certamente é a mais diferente de todas. Porque o Brasil não tem um pingo de responsabilidade sobre o que está ocorrendo e porque o Brasil está no seu melhor momento economicamente falando. O Brasil nunca esteve tão em dia com as suas obrigações, o dever de casa feito, com um mercado interno tão forte, com empresas tão sólidas, modernas e competitivas e com suas instituições tão garantidas, para encará-la.

Mas isso não nos exime das conseqüências da crise. Que, por sinal, é também uma das mais potentes e destruidoras das que se tem notícia em quase um século. Ela já está sendo dura e será ainda mais devastadora, não precisamos ser profetas para prevê-lo. Então, o que nos resta fazer?

O óbvio é termos medo, nos encasularmos, rezarmos para diferentes deuses, de diferentes religiões, ficarmos imóveis acreditando que qualquer mínimo movimento pode ser fatal para ela nos alcançar e, assim, esperarmos, até que ela passe.

Demitir, cortar os investimentos, reduzir a produção, suspender novos projetos, reprimir os movimentos de inovação, não acreditar num retorno inesperado da demanda, também são boas e óbvias idéias. Talvez, algumas tenham mesmo que ser feitas, quem sabe? Mas também há o inóbvio, por mais que, obviamente, a palavra inóbvio não exista. E não existe por quê? Porque ninguém a disse antes, vai saber.

E é aí que reside o intuito deste nosso anúncio: apelar para os que acreditam que o inóbvio existe. Não só existe, como pode ser feito nesse exato momento onde o óbvio é o que todos pensam, todos fazem, todos professam e todos aconselham.

O intuito deste anúncio é, humildemente, tentar criar uma minúscula fagulha de otimismo, de esperança – nossa velha, desgastada, mas essa sim, querida amiga em todos os nossos célebres momentos de crise – para que ela se dissemine, se instale na nossa cabeça, nas nossas empresas, na nossa sociedade, mesmo lutando contra esse poderoso inimigo, que tão mais facilmente gosta de se instalar nesses mesmos lugares ao menor sinal de que o pior pode acontecer.

O intuito deste anúncio é despertar o empreendedorismo que sempre caracterizou o empresariado brasileiro, a coragem que sempre foi a marca registrada das nossas empresas, a capacidade inesgotável de reinvenção que sempre foi o norte dos vencedores neste nosso país. E também é o intuito deste anúncio demonstrar que um marketing original é a mais poderosa fonte de energia, capaz de gerar as transformações que uma empresa precisa num momento de crise.
Nós acreditamos piamente nisso. Esse é o nosso óbvio.

Acreditamos que se esse não é o momento de inovar, que outro será? Acreditamos que se esse não é o momento de ser e parecer diferente dos seus concorrentes, que outro haverá de ser? Acreditamos que se não for essa a hora de falar, enquanto muitos se calam de medo, que outra hora estará à nossa disposição para fazê-lo?

Uma grande idéia, única, diferente de todo o óbvio, sempre foi e sempre será o detonador mais valioso - e menos oneroso - para se mudar a história, o humor, a fé, a determinação e o otimismo interno de uma empresa.

É isso que nós defendemos para os nossos clientes e que queremos externar para o Brasil inteiro hoje. Porque tivemos a presunção de que se nós pensamos assim, talvez você, talvez mais gente por aí também pense do mesmo jeito. E nós adoraríamos poder contar com mais gente, mais empresários, mais cidadãos para ajudar a contrariar o óbvio, a não aceitar passivamente em todas as suas piores conseqüências o medo, pelo medo.

Crises nós já enfrentamos e, queiramos ou não, ainda enfrentaremos essa um bom tempo e outras por muitas vezes. O que deve nos mover é a visão de como nós queremos ser percebidos assim que mais uma vez nós sairmos dela. De pé, ou de cócoras.

Aqueles que foram criativos, inovadores, desafiadores, obstinados, inteligentes, inóbvios, ou apenas aqueles - a maioria - normalmente óbvios. Na crise, já disseram muitos, é que se separam os homens dos meninos. Ou seja, crise pode ser café pequeno para os homens.

Nós gostamos com açúcar.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Quem me dera...

Sabe aquela história que te contaram uma vez, há muito tempo mesmo, e você nunca mais esqueceu? Pois bem, hoje meu post será um texto que reflete exatamente essa idéia, uma história contada pelo Rubem Braga, em 1953.

De tão bem escrita parece que eu estava lá com ele, observando o mar e sentindo a mesma coisa, torcendo junto. Quem sabe um dia poderei contar uma situação cotidiana com tanta maestria...

Homem no Mar

Rubem Braga

De minha varanda vejo, entre árvores e telhados, o mar. Não há ninguém na praia, que resplende ao sol. O vento é nordeste e vai tangendo, aqui e ali, no belo azul das águas, pequenas espumas que marcham alguns segundos e morrem, como bichos alegres e humildes; perto da terra a onda é verde.

Mas percebo um movimento em um ponto do mar; é um homem nadando. Ele nada a uma certa distância da praia, em braçadas pausadas e fortes; nada a favor das águas e do vento, e as pequenas espumas que nascem e somem parecem ir mais depressa do que ele. Justo: espumas são leves, não são feitas de nada, toda sua substância é água e vento e luz, e o homem tem sua carne, seus ossos, seu coração, todo seu corpo a transportar na água.

Ele usa os músculos com uma calma energia; avança. Certamente não suspeita de que um desconhecido o vê e o admira porque ele está nadando na praia deserta. Não sei de onde vem essa admiração, mas encontro nesse homem uma nobreza calma, sinto-me solidário com ele, acompanho o seu esforço solitário como se ele estivesse cumprindo uma bela missão. Já nadou em minha presença uns trezentos metros; antes, não sei; duas vezes o perdi de vista, quando ele passou atrás das árvores, mas esperei com toda confiança que reaparecesse sua cabeça, e o movimento alternado de seus braços. Mais uns cinqüenta metros e o perderei de vista, pois um telhado a esconderá.

Que ele nade bem esses cinqüenta ou sessenta metros; isto me parece importante; é preciso que conserve a mesma batida de sua braçada, e que eu o veja desaparecer assim como o vi aparecer, no mesmo rumo, no mesmo ritmo, forte, lento, sereno. Será perfeito; a imagem desse homem me faz bem. É apenas a imagem de um homem e eu não poderia saber sua idade, nem sua cor, nem os traços de sua cara. Estou solidário com ele, e espero que ele esteja comigo. Que ele atinja o telhado vermelho, e então eu poderei sair da varanda tranqüilo, pensando — "vi um homem sozinho, nadando no mar; quando o vi ele já estava nadando; acompanhei-o com atenção durante todo o tempo e testemunho que ele nadou sempre com firmeza e correção; esperei que ele atingisse um telhado vermelho e ele o atingiu".

Agora não sou mais responsável por ele; cumpri o meu dever, e ele cumpriu o seu. Admiro-o. Não consigo saber em que reside, para mim, a grandeza de sua tarefa; ele não estava fazendo nenhum gesto a favor de alguém, nem construindo algo de útil; mas certamente fazia uma coisa bela, e a fazia de um modo puro e viril. Não desço para ir esperá-lo na praia e lhe apertar a mão; mas dou meu silencioso apoio, minha atenção e minha estima a esse desconhecido, a esse nobre animal, a esse homem, a esse correto irmão.

Extraído do livro "As cem melhores crônicas brasileiras", pág. 110. Editora Objetiva.

Para saber mais sobre o Rubem Braga clique aqui.

PS: Não poderia deixar de comentar que adoro este escritor e que acho muito curioso ele ter morrido no dia do meu aniversário, 19/12. O ano não é o mesmo, pois ele faleceu em 1990, mas por incrível que pareça é um ano que recordo muito. É um comentário bobo de qualquer forma, só escrevo porque descobri isso há pouco tempo e achei curioso, nada de mais...