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sexta-feira, 19 de junho de 2009

E o que faço agora, com o diploma rasgado em mãos?

Queria fazer uma graduação e lá fui estudar o que eu sempre quis:

  • Curso escolhido: jornalismo, sonho de criança que iria se realizar;
  • Investimento: mensalidade do curso, transporte, alimentação, muitos livros, encadernações e cópias, fitas mini-DV, aluguel de câmera e cinegrafista, idas e vindas de São Paulo e Brasília para entrevistas, contas absurdas de telefone (por causa das entrevistas), etc;
  • Consequências do investimento: pai, mãe e Gabi se matando de trabalhar e se privando de muitas coisas, com dinheiro contado para tudo;
  • Duração: quatro anos estudando feito louca semiótica, teorias de comunicação, história da arte e do jornalismo, português, infografia, filosofia, técnicas de redação para TV, rádio, jornal e revista, jornalismo científico, investigativo, cultural, esportivo, econômico e tudo sobre assessoria de imprensa. Isso sem falar do tempo dedicado aos projetos semestrais de Iniciação em Jornalismo e outros trabalhos que tomaram noites e noites de sono...

Ufa! Os quatro anos se passaram e após tanto esforço me tornei uma bacharel em comunicação social, com habilitação em jornalismo e diploma em mãos. Sonho realizado!

Agora você vai me dizer: "Nossa, Gabriela. Está vendo como valeu a pena estudar, se dedicar ao seu sonho e conseguir se formar?". Infelizmente terei que lhe responder: não, não valeu a pena. E sabe por quê? Porque o Supremo Tribunal Federal aprovou por 8 votos a 1 a não obrigatoriedade do diploma para jornalista.

Além de jogarem no lixo minha formação acadêmica, investimentos e anos de estudo, sem falar nos meus direitos trabalhistas, anularam também o seu direito à informação de qualidade...

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Que ideia foi essa...

A atualização de algumas regras de ortografia da nossa querida língua portuguesa vão além das paroxítonas com ditongos abertos e tremas. O texto abaixo do jornalista Fernando Molica aborda esta "adequação", que não resume-se apenas à mudança de nossos hábitos ortográficos.

O AI-5 ortográfico
Por Fernando Molica, em 30 de dezembro de 2008.

Hoje, no Jornal Nacional, o Pasquale Cipro Neto ressaltou um aspecto fundamental nesta questão da reforma ortográfica: ela tem um custo. O custo de todos os livros que ficarão desatualizados, o custo dos corretores ortográficos dos programas dos computadores. E há mais custos, como o custo sentimental, a sensação de se reconhecer mais velho, desatualizado, fora do tempo. O mundo me chega pela língua. O idioma é também o instrumento com o qual tento, pelo menos, me fazer entender. E, daqui a poucas horas, este instrumento será mudado. O pouco que se sei será menos ainda.

Escrevo ao lado de uma estante que ocupa toda uma parede. Quantos livros haverá aqui? 800? Mil? Sei lá. Sei é que todos esses livros, assim como os que ficam nas outras estantes aqui de casa, estão condenados à morte, à velhice eterna, a uma espécie de arteriosclerose: continuarão existindo, mas serão levados menos a sério, estão todos condenados. Como os livros anteriores à reforma de 1972. Lembro que, alguns bons anos depois da anistia, trabalhei com um ex-exilado, um sujeito que estava fora do país quando houve a tal reforma. Pois, o texto do cara era cheio de acentos inexistentes, cheirava a mofo, a velhice. Uma velhice arbitrária, causada não pelo movimento da vida, pelo passar do tempo, mas por uma decisão autoritária, pouco democrática - estávamos no auge da ditadura militar.

Mais grave que o envelhecimento precoce dos livros aqui de casa é a morte anunciada do acervo das editoras. Milhares, milhares - milhões? - de exemplares estocados que, em pouco tempo, terão como único destino o lixo, a fogueira. Temo por uma espécie de hiato, uma zerada de estoque. Livros não-vendidos mas que continuavam em catálogo terão que ser descartados, vão parecer peças de museu com todos os seus muitos acentos, tremas e hífens. A grande maioria, a maioria absoluta, não será reeditada. Isso é gravíssimo. Futuros leitores não terão acesso a obras relativamente recentes. Livros lançados em 2008 ficarão caquéticos em pouquíssimo tempo.

Esta nova reforma é, até onde me lembro, fruto de uma conjuntura particular, de uma tentativa - por sinal, fracassada - de criação de uma tal Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, uma iniciativa do Zé Aparecido que encontrou no Antônio Houaiss sua tradução gramatical. E o Houaiss tratou de inventar uma novilíngua, a língua que ele achava que deveria ser a nossa língua. Não a portuguesa, não a 'brasileira' (chegam a falar assim em Portugal), mas a língua que ele achava que deveríamos escrever. Não uma língua que tivera sua evolução pautada pelos costumes, pela prática, mas uma língua de laboratório, biônica. Ninguém nunca escrevera do jeito que ele achou que deveríamos passar a escrever. Ele inventou uma língua e conseguiu emplacar essa besteira, pelo menos, entre nós.

Em maio passado, estive em Portugal. Pelo que vi, esta reforma não vai pegar por lá. Elas a tem como uma arbitrariedade, como coisa de brasileiros, uma tentativa de estupro de um idioma que eles, apesar da desigualdade numérica em relação ao número de falantes, continuam a chamar de seu. Duvido que eles aceitem esse negócio. Trouxas somos nós que aceitamos ser pioneiros nessa aventura.

OK, fala-se na necessidade de unificação, ressalta-se que o português é a única língua culta que não tem uma gramática única. E daí? As diferenças hoje são, na prática, menores. Lembro que livros portugueses eram 'traduzidos' no Brasil, eram adaptados ao nosso idioma. Se não me engano, Saramago acabou com isso, exigiu que as edições brasileiras respeitassem seu português. E o vento que ventou aqui ventou lá. Brasileiros publicados em Portugal passaram a exigir o mesmo. E a vida seguiu bem assim, sem traumas e com tremas.

A convivência com tantas ditaduras e com tantos pacotes econômicos nos fez mais dóceis e passivos. É absurdo que tantas mudanças sejam acompanhadas com tanta letargia. No mínimo isso demonstra - que surpresa? - um absoluto descaso pela língua, pela história de cada um de nós. Talvez ainda seja tempo de acabar com essa sandice, com esse ato institucional que nos toma algo precioso demais.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Perguntar dói, e muito!

Não importa o lugar, quando o assunto é petulância e má educação todo nós estamos sujeitos, ainda mais quando se quer algum tipo de informação importante – a coisa mais normal do mundo a um jornalista.

Escrevo isso porque fico revoltada e puta da vida ao ler que algum repórter apanhou enquanto trabalhava, como o jornalista que foi agredido por torcedores austríacos em uma transmissão ao vivo. Além da física, outro tipo de agressão que me tira do sério é a implícita, que vai desde desligar o telefone na cara, fazer de conta que não ouviu/entendeu ou até mesmo tirar sarro da situação, sendo que você precisa escrever sobre aquilo e não ouvir piadas do assunto. Mas, sem dúvida, a de não ser levado a sério é ainda pior, principalmente por aqueles que renegam ao jornalista justamente aquilo que é a base do seu trabalho: o direito à informação. Neste quesito, alguns assessores e puxa-sacos são experts e conduzem com maestria a falta de ética que pode haver no relacionamento com a imprensa (ainda bem que são a minoria).

Expondo o que considero agressão já dá para comentar a total falta de respeito que tiveram com um dos repórteres do CQC, o Danilo Gentili, quando ele cobria a visita da Marta (PT) em uma favela ao lado do Morumbi. Não gosto muito de comentar essas coisas, mas depois de ler a notícia do Ricardo Galhardo, de O Globo, e do Rubens Valente, da Folha, me deu tanta raiva que tive que escrever algo para deixar marcada minha opinião.

Ler notícia de internet é um pouco complicado, mas o primeiro jornalista noticiou que o repórter da Band teria sido impedido de chegar perto da ex-prefeita e que rasgou a bandeira de um militante que participava da visita na favela, em São Paulo. Já Valente relata que Gentili tentou gravar um quadro com a candidata, com um manequim semelhante ao que ela cumprimentou por engano (ótima idéia). Já dá para imaginar o restante da história, né?

Logicamente que rasgar a bandeira não é uma atitude coerente (apesar de não acreditar que ele tenha feito isso), mas nada justifica o que aconteceu depois. De acordo com a nota publicada, o repórter teria sofrido agressões que foram chamadas de “brincadeira” pelo fotógrafo da aspirante à prefeita sem-noção, César Ogata: “Foi uma brincadeira. O "CQC" não é um programa de humor?”. Comentário simplesmente ridículo, porque a brincadeira a qual Ogata se refere é instigar a população a "passar a mão na bunda dele [Danilo]”, conforme Galhardo.

De boa, quem assiste ao CQC e tem um mínimo de cérebro sabe que o programa é irreverente e tem humor sim, mas a base de suas matérias são totalmente jornalísticas; isto é inegável. Entretanto, a discussão que fica aqui é até que ponto vai a agressão a um repórter, sendo que no caso do Gentili foi física e verbal. Será que ele fez algum tipo de pergunta que "não deve" ser feita? E eu que aprendi que perguntar não dói, pelo menos em tempos de democracia...

A única justificativa plausível, na minha opinião, é que este tipo de atitude só fortalece ainda mais a idéia de que algumas perguntas podem doer tanto que é mais fácil responder com socos ao usar palavras. E já que é assim eu também acertaria o microfone ou meu bloco de notas como contra-resposta, com toda a certeza.