Meu xadrez pessoal…

tabuleiro não era de madeira fria, mas de chão vivo, pulsante, que se movia conforme o coração da jogadora acelerava. Cada quadrado respirava junto com ela, claro e escuro, luz e sombra. No meio, firme em seu espaço limitado, estava o rei. Ele não era apenas uma peça: era uma pessoa, alguém que ela precisava proteger a qualquer custo.

Do outro lado, a falsa dama escarlate, ardilosa e ladina. Avançava com movimentos calculados, sempre buscando a brecha, como quem sabe que a força bruta não se vence sozinha. Sua presença pesava, ameaçava, engolia o ar. Não era reflexo, não era dúvida interna. Era inimiga real, disposta a derrubar o rei.

A jogadora, por um instante, sentiu-se pequena demais. Não conhecia as regras, nunca havia jogado essa partida. Mas já estava dentro dela. E, mesmo sem saber como, precisava mover-se.

As mãos da jogadora tremiam. O coração pedia pressa, mas ela moveu apenas um peão. Um passo pequeno, quase insignificante. E ainda assim, o tabuleiro inteiro se transformou. A falsa escarlate hesitou. O jogo, pela primeira vez, parecia se abrir.

A cada lance, a jogadora descobria aliados invisíveis. Peões pacientes, torres firmes, cavalos ágeis, bispos discretos. Eram forças que estavam sempre ali, mas que só agora ela percebia: paciência, coragem, inteligência, persistência. Não precisava lutar sozinha.

A falsa escarlate, contudo, avançava com arrogância e astúcia, ocupando cada espaço, como se fosse dona do tabuleiro. Mas quanto mais se movia, mais exposta ficava. A jogadora percebeu, então, que não venceria com pressa nem com força bruta. Venceria com estratégia, com espera, com movimentos simples que, juntos, formavam um bem maior.

Com calma, começou a erguer um círculo de proteção ao redor do rei. Cada peça em seu lugar, cada movimento medido, como quem constrói muralhas de dentro para fora. O inimigo parecia não notar, embriagado pela própria soberba.

Até que veio o momento do cerco. A dama, tão confiante em sua vitória, de repente percebeu que seus passos a levavam cada vez mais para dentro de uma rede invisível. E quando tentou escapar, era tarde. O xeque-mate chegou sem alarde. Não houve grito, nem celebração ruidosa. Apenas a firmeza tranquila de quem sabe que venceu. Um movimento certeiro e a dama de escarlate falso foi derrubada. O rei estava salvo.

E naquele instante, a jogadora entendeu: a vitória não foi apenas contra a dama inimiga. Foi contra o medo de não saber jogar. O tabuleiro, antes labirinto e ameaça, agora era caminho e espelho.

Ela havia descoberto que, mesmo sem conhecer todas as regras no início, tinha dentro de si a força para aprender, proteger e triunfar. O rei permanecia firme, o tabuleiro em silêncio, e ela — mais do que vencedora — era agora a verdadeira dona do jogo.

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